Eurovision, o que é? (Post in Portuguese)

Uma das coisas que une as pessoas é música, durante meses do pós guerra rádios europeias não tocavam músicas, ou tocavam músicas em inglês. Na recuperação da identidade nacional positiva, não através de um governo autoritário, em 1951 na Itália começou o Festival della canzone italiana di Sanremo, ou simplesmente, o Festival di Sanremo. Um festival transmitido pelo rádio na Itália, e posteriormente pela TV, pela RAI. O festival caiu no gosto popular e alguns países vizinhos ouviam as músicas italianas pela rádio e começaram a pensar “E se a gente fizesse nosso próprio Festival di Sanremo?”.

A UER ou Union européenne de radio-télévision, ou em bom português União Europeia de Radiodifusão, surgiu para integrar as rádios e televisões da Área Europeia de Rádiofusão, que apesar do nome, não cobre somente a Europa como parte do norte da África, Oriente Médio e Oeste Asiático. Formada em 1950, seus membros eram redes de televisão e rádios da Bélgica, Dinamarca, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Irlanda, Itália, Líbano, Luxemburgo, Marrocos, Monaco, Noruega, Portugal, Reino Unido, Suécia, Suíça, Tunísia, Turquia, Vaticano e Yugoslavia, em 1952 a Alemanha se juntaria.

Área de transmissão europeia

Com a UER formada, ideias foram surgindo, mas a ideia definitiva veio em 1954, com a criação da rede Eurovision, o suíço Marcel Bezençon, até então diretor da UER, sugeriu uma competição amigável musical entre os países europeus, utilizando o rádio e TV para unificar a Europa. Com esse conceito, nasce o Concours Eurovision de la chanson em 1954, que seria feito através da novíssima rede Eurovision, uma forma de vários países se conectarem e juntos acompanharem o mesmo conteúdo, além de disponibilizar conteúdo em diversos idiomas para diversas rádios e TVs associadas.

O teste real do sistema Eurovision seria posto a prova em 1956, na primeira edição do Concurso Eurovision da Canção em Lausanne, onde Alemanha, Bélgica, França, Holanda, Itália, Luxemburgo e Suíça enviaram duas canções a serem performadas pelo mesmo artista ao vivo. O concurso deveria ser transmitido da Suíça para todos os países participantes e para a Áustria, Dinamarca e Reino Unido, os 3 viriam a se juntar ao concurso no ano seguinte.

Lys Assia, vencedora do primeiro Concurso Eurovision da Canção

O concurso de 1956 foi um grande teste, ninguém sabia como lidar com o programa de TV que acabou de surgir e em 1957 grandes mudanças foram introduzidas. Em 1957, foi decidido que deveriam ter mais câmeras filmando o concurso, mesmo em 1956 sendo um programa que era idealizado para a TV, somente havia uma câmera filmando o concurso inteiro. Também foi decido que somente uma canção por país e que dessa vez os votos deveriam ser mais transparentes, pois mesmo a canção Refrain de Lys Assia ser uma canção vencedora, ninguém sabia que era o segundo lugar ou até mesmo o último lugar. Já com 10 países, o concurso foi realizado em Frankfurt na então Alemanha Ocidental, transmitido pela TV para os 10 países participantes e um dos primeiros que o júri estava quase que 100% remoto, onde os votos eram dados por telefone ao vivo.

Como o primeiro Eurovision que se preocuparam em fazer para TV, aqui está uma gravação de 1957!

Já em 1957 o Grand Prix Eurovision de la Chansón Européene 1957 começou a seguir mais ou menos o que seria o padrão do show durante bastante tempo, que seria, uma pequena introdução, as músicas seriam performadas com uma orquestra e voz ao vivo, logo depois os júris regionais de cada país votariam em suas canções preferidas em nome da cada país, lembrando que desde cedo existia a regra que você não podia em seu próprio país. O show desde já atraia olhares de muitos não-membros da UER, pois mesmo baseado em no que se tornou uma final nacional, no caso, o Festival di Sanremo.

Eurovision vs Eurovision

Uma coisa que vale notar desde já é uma questão de nomenclatura, existem mais de um Eurovision. Existe a rede Eurovision, que seria como um “emissoras da Rede Globo” e o concurso da canção, que hoje é chamado de Eurovision entre os fãs. A rede Eurovision é algo totalmente diferente, tanto que ao começar o concurso normalmente os narradores da BBC avisam: “Vamos agora entrar na rede Eurovision, para acompanhar o Concurso Eurovision da Canção”.

Montagem de 2019 com as introduções da rede Eurovision.

Inclusive, a rede Eurovision também é responsável por outros concursos, são esses:

Eurovision Young Musicians – desde 1982, já ocorreram 19 edições.
Eurovision Young Dancers – Ativo de 1985 até 2017, ocorreram 17 edições.
Junior Eurovision Song Contest – Desde 2003, já ocorreram 17 edições.
Eurovision Magic Circus Show – Ativo de 2010 até 2012, ocorreram 3 edições
Eurovision Dance Contest – Ativo de 2017 até 2018, ocorreram 2 edições.
Eurovision Choir – Desde 2017, já ocorreram 2 edições.

Além de atualmente a rede Eurovision junto com a UER ter os direitos sobre os concursos “Let the Peoples Sing” (realizado bianualmente desde 1961) de corais amadores e também do “Jeux Sans Frontières” (realizado pela Eurovision de 1965 até 1999).

Brasil?

O Eurovision cresceu em popularidade em todo mundo durante os anos 60, em 1969 foi uma das edições mais vistas do mundo, e ganhou como a edição com maior número de participação de televisores ligados. O motivo? Além dos 16 países que participaram do concurso, ele foi transmitido dentro da então cortina de ferro, sendo transmitido pela TV estatal Soviética para então toda a União Soviética, além das TVs nacionais da Checoslováquia, Hungria, Polônia, Romênia e Alemanha Oriental. Além do interesse socialista, ocorreu a transmissão na Tunísia, México, Puerto Rico, Chile e … Brasil!

A então TV Tupi começou a transmitir o concurso direto por satélite para as TVs brasileiras nos sábados às 4 horas da tarde. A TV Tupi transmitiu mais alguns concursos até 1971… o interesse da América Latina pelo Eurovision começou a chamar a atenção do Marcel Bezençon e já em 1972 a Tupi não ia mais transmitir o Eurovision pois iria ocorrer a primeira edição Festival OTI de la Canción, onde além dos membros da UER, iam competir os membros da OTI, a Organización de Telecomunicaciones de Iberoamérica. Até sua extinção, a TV Tupi participaria do Festival da OTI, quando foi substituída pela Rede Bandeirantes até a extinção do concurso por falta de interesse das emissoras.

Por sinal, o segundo Festival da OTI foi feito em Belo Horizonte em 1973, já que o Brasil ganhou a primeira edição do Festival.

Explosão de popularidade

Se nos anos 60 a popularidade estava em alta, nos anos 70 ocorreu uma explosão de popularidade, mesmo com as presepadas como a falta de uma regra de desempate em 1969, onde ganharam 4 competidores, e com a participação incrivelmente baixa em 1970 devido à falta da regra do desempate o concurso só crescia em popularidade tanto na TV quanto no rádio, alguns grandes vencedores conseguiram estourar hits no Japão, Austrália (mais sobre ela em breve) e Estados Unidos.

Nessa época também crescia o número de países que pediam a abolição da regra da língua nativa, que até então estava em atividade e assim o país era obrigado a cantar na língua nativa de seu país, o que muitos diziam que favoreciam os países falantes de Francês e Inglês. Mesmo já nessa época entre as línguas vencedoras estarem o Dinamarquês, Holandês, Alemão, Italiano e Espanhol, mas de fato já tinham havido 10 vitórias com canções em Francês. A regra foi abolida pela primeira vez em 1973 e o único país que aproveitou essa abolição em 1973 foi a Suécia, mesmo a música da Noruega ter como idioma principal o Inglês ainda continha alguma coisa de Norueguês, que nunca foi fã dessa regra e conseguiu um 5º lugar e ainda assim perdendo para uma música em francês.

A edição de 1974 tinha várias coisas diferentes, novamente a BBC veio ao resgate de um país que não queria ser host do Eurovision, isso não expliquei, mas se você ganhou meio que você tem que ser host da próxima edição de 1957, em Brighton mais países aproveitaram da regra das músicas poderem não ser na língua nativa, inclusive uma banda sueca chamada ABBA que mesmo ganhando na Suécia em Sueco cantou sua canção Waterloo em Inglês no palco do festival. Não é segredo que o ABBA foi um divisor de águas para o festival, mesmo com participantes e vencedores aclamados como Domenico Modugno, France Gall, Gigliola Cinquetti, Sandie Shaw e Massiel.

Até então, o concurso não tinha um reconhecimento internacional tão grande, porém com essa popularidade cada vez mais países optavam por apresentar uma canção em inglês, ignorando sua língua nativa, tanto que em 1977 a regra foi reintroduzida e permaneceu assim até 1999, já em 1999 novamente a Suécia ganhou com uma canção em Inglês e desde da abolição da regra muitos países nunca mais cantaram em sua língua nativa.

O mundo mudou, com ele o Eurovision também mudou.

O concurso continuava estável e comum até 1988, quando Celine Dion ganhou o concurso pela Suíça e foi o segundo grande sucesso a sair do concurso, as regras estavam sendo respeitadas e mesmo com alguns países querendo sair da linha, tudo andava normalmente. Em 1989 pela primeira a Yugoslávia ganhou o concurso, isso significou muito coisa pois já nessa época e Yugoslávia estava tendo conversas de cada república ir para seu lado, tanto que quando ela foi o país host em 1990 foi a última vez que ela participou com todas as repúblicas, em 1991 a Eslovênia já era outro pais, seguida pela Croácia e Macedônia do Norte. Também nessa época começou a dissolução da União Soviética, e todos esses países estavam se juntando a UER e mais tarde queriam participar do Eurovision também.

Somente em 1993, 15 países tiveram sua entrada autorizada na UER, e desses 15, aproximadamente 10 países tinham interesse imediato de participar no Eurovision, porém o concurso ainda não tinha semifinal e estrutura para 10 países novos participarem do concurso, começaram a ser estudadas regras de como o concurso ia abrigar esses novos participantes. Em 1993 foi feita a primeira classificatória entre 7 países, cujo Bósnia e Herzegovina, Croácia e Eslovênia, os 3 vencedores foram presentados com uma participação do concurso de 1993.

Resultados da Pré-seleção de 1993

Já em 1994 entrou em prática uma regra de ‘rebaixamento’, as últimas 5 posições do ano de 1993 não poderiam participar do próximo ano, assim em 1994 foi feito o recorde de mais novas participações do Eurovision, com 7 países estreando. Essa regra foi mudada em 1997, após em 1996 a Alemanha, que era uma das maiores contribuidoras da UER e um dos participantes mais antigos do concurso foi desclassificado, assim agora valendo os resultados dos últimos 4 anos que decidiam a participação dos países. Podemos dizer que essa não participação da Alemanha foi o rascunho para o que seria conhecido como Big Four em 2000.

Em 1997 foi introduzido pela primeira vez o televoto, um modo do público decidir quem ganhava os pontos do país, os primeiros países a embarcar nessa aventura foram Alemanha, Áustria, Reino Unido, Suécia e Suíça, onde o público decidiu para quem os votos iriam sem a interferência de juris que muitas vezes desdenhavam do gosto popular que o concurso foi adquirindo através dos anos, em 1998 foi dada a opção dos países escolherem entre júri e televoto, e já nesse ano somente a Eslováquia, Hungria , Romênia e Turquia usavam o Júri como método de decidir os pontos.

“Ligue D’já”

Um novo formato e um problema popular.

Com o televoto pré-estabelecido como um método de votação, agora as músicas não precisavam mais apresentar qualidade técnicas superiores para ganhar, também tinham que ser populares e apresentar gostos populares. Em 1999 para cortar custos o concurso foi apresentado pela primeira vez sem orquestra, faixas pré-gravadas já eram comuns nos anos 80 e foram ganhando popularidade nos anos 90, mesmo assim algumas faixas, como a vencedora de 1995, Nocturne, se apoiaram totalmente no fato dos instrumentos serem ao vivo ainda e assim geraram uma das músicas que mesmo excepcionais não ganhariam hoje pois seria algumas frases e um .mp3 nos altos falantes.

Em 2000 começamos a ter diversos artistas que apostavam na viralização e sentimento de estranheza para fazer sucesso na votação, e muitos conseguiram muitos votos com esses sentimentos durante o começo dos anos 2000, músicas que falavam coisas sem nexo, “Wadde hadde dudde da?” ou queriam apostar em coisas politicas para fazer algum sucesso, o concurso da canção começou a focar no que passava no rádio. Porém ainda sim, havia diversos problemas com o formato do rebaixamento, porém em 2004 tudo mudou, tudo mesmo.

Até então, o Eurovision mesmo sendo uma marca e propriedade da UER e rede Eurovision, o concurso em si era de propriedade da emissora do país anfitrião, ou seja, mesmo a RAI tendo uma gravação do Eurovision de 1990, cujo a Itália foi a vencedora, a proprietária do conteúdo era a JRT, a emissora que organizou o concurso. Em 2004 os concursos mesmo produzidos por uma emissora anfitrião, seriam ainda da UER e ela teria o direito total sobre as imagens do concurso e todos os membros dela teriam direito de acessar o conteúdo livremente, assim por exemplo, a UER pode colocar 2004 no YouTube se quiser, mas ainda tem que pedir autorização para 2003 a Latvian Television.

Ah, agora o concurso tinha uma padronização de qual era realmente a marca do concurso. Além da mudança de como os direitos do concurso serão tratados, também ocorre a introdução oficial da semifinal, somente uma, onde os 10 mais bem colocados no ano anterior passariam direto para a final, junto com o Big 4, que na época eram Alemanha, Espanha, França e Reino Unido. Os 10 espaços restantes seriam decididos através de um semifinal que todos os países poderiam participar, assim tornando um pouco mais justo o concurso.

Porém ainda tinha uma questão bem importante, o impacto do televoto na qualidade do concurso, o que gerava situações bem desconfortáveis entre os competidores e alguns comentaristas que acompanhavam o concurso desde os anos 70, ocorreu uma desvalorização da música e priorização da música pop enlatada. Além de que muitos países ganhavam pelo fator estranheza e outros países por tentarem mostrar mais musicalidade ficavam de fora do concurso em ter que disputar 10 vagas.

O nascimento do Eurovision moderno.

Em 2007 ocorreu uma situação inusitada e muito mais desconfortável para os participantes, a semifinal teve mais competidores que a final, 28 participantes, entre eles estreantes, disputavam 10 vagas para final, cujo na final os últimos 8 colocados de 24 foram países com qualificação automática. Isso tinha que mudar, tanto que em 2008 começou o atual formato do Eurovision.

Fãs protestam na final de 2007: “Onde está Andorra?”

Agora seriam duas semifinais, dividido igualmente entre todos os países mesmo os que foram bem nos últimos anos, em cada semifinal 10 vitoriosos seguiriam para a final com o Big 4 e o vencedor do ano anterior, totalizando 25 competidores na final. Mesmo os que foram bem no ano anterior deveriam agora competir por uma vaga na final. Mesmo o vencedor e Big 4 não participando das semifinais, eles foram sorteados para votarem em uma das semifinais, assim até os países automaticamente qualificados podendo decidir o destino dos semifinalistas.

Em 2008, foi o último ano que veríamos o televoto sendo exclusivo numa decisão na final, já em 2009 é introduzido o sistema atual de votação em sua forma original, o júri voltou a fazer parte da votação e os pontos dele seria dividido igualmente com o televoto, sendo assim 50% do televoto e 50% do júri, ainda assim eles seriam anunciados de uma vez só e no mesmo sistema. Essa decisão foi um pouco polêmica pois muitos fãs acreditavam que a UER estava tirando a voz do público, porém ao mesmo tempo uma parte considerável acreditava que essa divisão causava uma consenso entre o profissional e o pessoal.

Em 2014 o concurso teve uma participação especial como não participante da Austrália, a UER tem membros diretos e membros associados, membros associados também tem acesso aos conteúdos de outros membros da UER e a SBS como membro associado exibe o Eurovision na Austrália desde 1984, desde 2009 eles possuem cabines para comentários e produção local na cidade anfitriã do Eurovision e na Austrália acordar ás 5:00AM de um domingo de Maio para ver Eurovision é uma tradição, em 2014 através de um participação eles pediram para participar, nem que fosse necessário mudar a Austrália para a Europa. No ano seguinte, em 2015, no aniversário de 60 anos, a Austrália foi convidada para fazer parte do Eurovision, e desde então mantem um dos melhores históricos no concurso sempre se qualificando nas semifinais e conquistando em diversas vezes o Top 10 na final.

Com o tema “Building Bridges”, uma ponte foi construída entre Vienna e Austrália.

O Eurovision Moderno

Desde 2016 não foram feitas muitas mudanças no concurso, a única grande mudança foi quem em 2016 o voto do júri e o televoto foram separados e agora são apresentados separadamente, o vencedor ainda é definido através de uma junção das duas votações. Normalmente, o vencedor do júri e televoto não são os mesmos e isso faz vencedores com a soma das duas pontuações vencerem. Essa mudança trouxe quase nenhuma grande mudança na forma que os pontos contam, afinal os pontos disponíveis e distribuídos foram dobrados basicamente, porém traz uma grande mudança na questão do programa de TV, agora a uma tensão para saber quem vai ser o vencedor final, quem você, o telespectador escolheu.

Não podemos negar que temos bons vencedores em maioria dos anos com o júri e televoto juntos, mesmo o público gostando mais das entradas pop e dando a elas a maioria dos votos, ainda sim vemos situações em que a Holanda ganha depois do 2º lugar do Júri, a Suécia, ser revelado o 9º no televoto.

No final só um vencedor.

Correções pontuais:
– O voto 50/50 entre o Júri e Televoto de fato foi introduzido em 2009. Erro meu, corrigido.

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